quarta-feira, 20 de abril de 2011

Estudos de Mídia –2° Período – 1° Semestre - UFF

Disciplina: Introdução à Comunicação Política

Professor: Afonso Albuquerque

Aluna: Noemi Trindade Pimentel Simões Alcantara

GT 9: Propaganda e Marketing Político

O GT apresentado tinha por foco o marketing e a propaganda eleitoral. Foram expostos os trabalhos: Publicidade eleitoral no jornalismo: a campanha de 2010 RS; A música na política eleitoral: um pouco da história jingle político no Brasil; A utilização de gimmicks na comunicação política: porque humanizar quem já é humano? e O funcionalismo no marketing político.

O tema dos trabalhos é explorar a atuação da comunicação junto a política. Cada palestrante tentou, através de um recorte especifico pensar a influência da mídia em período eleitoral.

O trabalho que abordou a temática do jingle político, do autor Luiz Claudio Lourenço, alegou que os jingles já fazem parte das campanhas eleitorais a décadas e que exercem a função de facilitar a retenção da mensagem que vincula a figura do candidato. É nos jingles, que os candidatos se apóiam para fazer a síntese de várias características próprias e de como se pretende governar.

Em seu trabalho, o autor, também cita estratégias adotadas na formulação das canções, tais como: a utilização de varias vozes entoando a música, o que remeteria a idéia de apoio e popularidade do candidato; e versões especificas para cada nicho público.

Já o recorte do trabalho Publicidade eleitoral no jornalismo, vislumbra através de uma pesquisa exploratória e de cunho empírico e quantitativo, apresentar que a vinculação da publicidade de candidatos a cargos eletivos no jornal impresso é uma estratégia que serve para institucionalizar uma candidatura e tentar ampliar a base de votos.

A pesquisa revelou um dado de extrema importância, que consiste na maior incidência de anúncios políticos na antevéspera do dia da eleição e que assim é possível concluirmos que o jornal impresso é “para impacto final de campanha.”

Outro item de destaque esta relacionado à diagramação do jornal. Descobriu-se que os candidatos não dão muita prioridade a que área e páginas serão expostas suas propagandas.

A problematização abordada pelo Prof. Dr. Sérgio Trein, foi a utilização de mascotes, que na publicidade são conhecidos como gimmicks, que de inicio tiveram por função atrair o publico e com o passar do tempo se mostraram verdadeiras armas de melhoria da imagem dos candidatos, ou seja, os gimmicks refletiam a imagem que o candidato queria passar, não muito comprometido com o real.

A conclusão que pode ser evidenciada é o quanto a utilização desses bonecos desumanizou o político, pois eles se transformam em ícones na memória do publico que passa a ser consumidor dos gimmicks.

Por fim, o trabalho O funcionalismo no marketing político, teve como meta relacionar a corrente teórica funcionalista, dando ênfase nos seus estágios – manipulação, persuasão e função – com o marketing político.

Juliana Victorino, afirma que a manipulação e a persuasão, estágios da corrente, estão “presentes nos discursos, nos jingles, nos slogans, nas frases, na postura, enfim, uma campanha política só é sucesso se for baseada nesses dois elementos funcionalistas.”

O objetivo da propaganda e do marketing é proporcionar a compreensão de suas mensagens de forma que o publico a internalize, compre. Detentores desta informação, os candidatos traçam suas estratégias eleitorais visando aproveitar ao máximo esta arma chamada comunicação.

Um apanhado do GT 2, sessão 1a (Mídia e Eleições) e o único trabalho apresentado no GT 9, sessão 2 (Marketing Político), por Thaís Brito

Durante a Compolítica foram assistidos por mim os GTs 2 e 9 nas sessões 1a e 2 respectivamente. O conteúdo do GT 2 focava em Mídia e Eleições; o primeiro trabalho apresentado falava sobre o horário gratuito de propaganda eleitoral na campanha para o senado e dava atenção especial às diferenças das estratégias de campanha de César Maia e Jorge Picciani do ano de 2010. Foi analisado o tempo de propaganda oferecido a tais candidatos, os temas e estrutura dos programas dos mesmos, sendo cada um deles bem distinto. Enquanto a candidatura de César Maia girava basicamente em torno de problemas presentes na vida da sociedade que deveriam ser solucionados, a de Picciani se concentrava numa dita necessidade de unir os poderes Legislativo e Executivo, utilizando-se como justificativa a defesa dos “interesses” do RJ. A campanha de César Maia contava ainda com “vítimas” daqueles problemas os quais ele se propunha a solucionar e na campanha de Picciani eram reproduzidos depoimentos de lideranças políticas estaduais e federais. Essas propagandas do horário eleitoral possuíam diferentes focos e também divergiam na caracterização das atividades do senador. César Maia adotou uma posição na qual tentava mostrar de forma direta ao eleitor sua concepção de representação política senatorial, explicando as funções do senador; Picciani fugia a esse caráter didático e ressaltava suas uniões e parcerias que auxiliariam em sua conquista dos recursos e interesses em favor do estado. Isso acaba por expor o quanto as funções dos senadores podem ser descritas de modo diferente, ainda mais dentre um conjunto de candidatos.



O segundo trabalho apresentado tratava basicamente das diferenças do discurso midiático dos partidos PT e PSDB nas eleições presidenciais dos anos de 2002 e 2010. É perceptível que houve uma mudança nas posições de mandatário e desafiante e até mesmo nas estratégias usadas para conquistar eleitores. Foi colocado em dados estatísticos as diferenças do “confronto” entre Serra e Lula (2002) e Dilma e Serra (2010). Falou-se também sobre as intenções que estavam contidas nos discursos de cada um dos candidatos, inclusive mostrando quantas vezes haviam atacado o oponente ou mesmo quantas vezes haviam criticado o governo que estava em curso naquele determinado período.



No terceiro trabalho o tema abordado era uma análise sobre a propaganda eleitoral em Moçambique, e principalmente sobre o papel exercido pela televisão nas campanhas políticas. Com o fim de uma guerra civil em 1992, foi adotada a democracia pelo governo moçambicano. Nos anos de 1994, 1999 e 2004 predominava um bipartidarismo, que foi quebrado nas eleições de 2009 por meio do surgimento de um novo partido. É cabível ressaltar que o voto em Moçambique não é algo obrigatório, o que acaba resultando na ausência dos eleitores quando podem escolher seus governantes, isso revela até certa desconfiança dos eleitores para com os candidatos. Isso poderia ser justificado através de prováveis fraudes dos votos que favoreceriam sempre os partidos apoiados pelo governo. É válido falar que com o progresso das dinâmicas da campanha eleitoral há uma evolução da própria televisão. A transmissão do horário gratuito se dá em apenas um emissora, fazendo com que a propaganda eleitoral tenha que concorrer com a programação de outros canais pela atenção dos telescpectadores. Sendo assim, isso claramente dificultaria a realização do objetivo do HGPE, que seria aproximar os eleitores dos discursos dos candidatos, tentar orientá-los e/ou até mesmo provocar uma mobilização por parte da população em tempos de eleição.



O quarto trabalho tratava da utilização do melodrama no contexto político. O melodrama seria um instrumento que permitiria a significação dos símbolos que são expostos aos eleitores, partindo-se de um olhar melodramático. Deixando-se de lado um princípio racional, ligaria-se ainda mais a um discurso capaz de criar vínculos entre o candidatos e o público, aproximando-os. Os candidatos se aproveitariam para criar um contexto o qual demonstrasse de forma clara emoção, criariam uma imagem de heróis para eles mesmos e exporiam sua própria trajetória, incluindo alegrias e tristezas, conquistas e derrotas, despertando no eleitor certa intimidade e comoção, em alguns momentos até apelando para o exagero e certo sensacionalismo.



Na sessão 2 do GT 9 que abordava Marketing Político contou com a apresentação de um trabalho apenas. Esse trabalho teve como tópico o potencial dos advergames como mídia eleitoral e mais especificamente falou-se sobre o jogo Dilma Adventure. Nesse jogo a presidenta Dilma era a personagem principal e a “heroína” naquele contexto. O jogo por si só, intencionalmente ou não, propagava uma boa imagem de Dilma e de certa forma até desmoralizava o candidato Serra já que no jogo ele era trtado como um vilão, um obstáculo nas conquistas de Dilma. Ainda foram citados outros jogos criados por diversas marcas que pretendiam associar a imagem da marca com um determinado tipo de entretenimento oferecido ou mesmo a inserção de propagandas discretas em jogos já existentes.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Resenha do GT8: sessão 2-a: "Jornalismo, Ética e escândalos políticos" por Luana Calazans

Entre os dias 13 e 15 de abril de 2011, aconteceu na UERJ a Compolítica, que teve várias mesas de discussão e grupos de trabalho, dentre esses, tive a oportunidade de assistir a somente um, o GT8: sessão a - “Jornalismo, Ética e escândalos políticos”. Neste GT foram apresentados 4 trabalhos abordando este tema.

O primeiro trabalho apresentado foi “A disputa pelo poder simbólico no escândalo do mensalão” por José Henrique P. e Silva, em seu trabalho ele afirma que fez a junção entre política e a mídia através da linguagem, pois tanto na mídia como Ana política a palavra tem um poder muito grande. Ele fala sobre o mensalão como um escândalo político-midiático e afirma que o jornal Folha de São Paulo teve um papel decisivo nesta época (como por exemplo, fazendo entrevistas exclusivas com Roberto Jefferson) . Henrique afirma também que na época do escândalo do mensalão, havia certo “diálogo” entre a Folha de São Paulo e os discursos de Lula, ocorrendo uma disputa simbólica entre eles. Durante sua apresentação o autor dividiu essa disputa em algumas fases, como se a estrutura deste escândalo fosse seqüencial. Henrique fala da diferença dos discursos da Folha de São Paulo e os de Lula, um falando que havia a necessidade de investigação e criação de uma CPI e o outro dizendo que a investigação já estava acontecendo e colocando tudo nas mãos da Polícia Federal (esta foi um tipo de suporte para o governo durante o escândalo). Ele percebe também que após algum tempo há uma mudança no discurso de Lula, que no final já está afirmando que “se tivermos que cortar qualquer carne, vamos cortar”, mas também ocorre uma mudança no discurso da Folha de São Paulo que agora coloca o ex-presidente e seu partido em um patamar de igualdade. O fim desta disputa simbólica ocorre quando a questão econômica entra na disputa e com as eleições da época tomando conta da mídia nacional.

O segundo trabalho foi “Escândalo político e os laços entre mídia e política no Brasil” de Pâmela Pinto, da UFF. Em seu trabalho, Pâmela fala sobre a cobertura midiática de 2 casos específicos, o Caso Lunus (2002) e os Atos secretos do senado (2009). O caso Lunus envolvia a família Sarney, mais especificamente Roseana Sarney que na época ia ser candidata à presidência do Brasil, e foi um caso onde durante uma busca foram encontrados R$: 1,34 milhões em seu escritório, mas a origem deste dinheiro não foi descoberta. Os Atos secretos do senado foram uma série de denúncias sobre a não publicação de vários administrativos, como contratações de parentes de senadores, extensão de planos de saúde e etc., um dos envolvidos era José Sarney. Pâmela trata da disparidade das manchetes de jornais neste período. Ela também coloca em pauta a relação entre Sarney e Roberto Marinho e a discussão da diferença entre o jornalismo central e o jornalismo regional. Nessa discussão entre Central X Local, Pâmela mostra as manchetes dos dois jornais na época dos dois escândalos, as do Jornal do Maranhão, ás vezes até falando que as do outro jornal eram inverdades. Isso mostra a defesa dos interesses de cada um na época. Isso mostra o papel que a mídia exerce no jogo de poder.

O terceiro trabalho foi “Um escândalo no senado: enquadramento de atos sigilosos e negociações no cenário político” de Neuma Augusta Dantas e Silva, da UFBA. Assim como Pâmela, Neuma escreveu seu trabalho sobre o escândalo no senado, em 2009. Neuma fala sobre as mensagens enviadas aos leitores através da mídia, menciona também os frames, que fala em seu texto que são caminhos para identificar os quadros numa reportagem. Neuma fala do papel da revista Veja neste escândalo, ela afirma que a revista tratou do tema com pouca amplitude do assunto, pois, como Pâmela também menciona, ela mantém uma defesa de interesses sobre o assunto abordado. Também vale mencionar que José Sarney após toda polêmica conseguiu ser eleito presidente do senado mais uma vez neste ano de 2011.

Durante as apresentações destes trabalhos percebi que todos tinham em comum a base em Thompson, eles falavam do escândalo em fases e alguns até citaram algumas frases de Thompson como defesa de seu ponto de vista. Henrique dividiu o escândalo em várias fases (pré-escândalo, escândalo e etc), Pâmela também menciona Thompson em seu trabalho e Neuma coloca em seu trabalho duas citações de Thompson para reforçar seu ponto de vista, uma é o conceito de escândalo para Thompson “Lutas pelo poder simbólico em que a reputação e a confiança estão em jogo” e uma frase que para Neuma ajudaria a entender a eleição de Sarney como presidente do senado novamente após o escândalo: “esvaziadores potenciais de reputação de indivíduos ou partidos políticos, entretanto, algumas pessoas podem emergir de um escândalo com suas reputações parcialmente intactas” (Thompson)

Resenha sobre o trabalho “A utilização dos gimmicks na comunicação política”, da 1ª sessão do GT 9 de quinta-feira por Isadora Mann

Outro trabalho escolhido para fazer esta resenha foi o último trabalho apresentado na primeira sessão do GT 9. O tema abordado foi a utilização dos gimmicks na comunicação política. Gimmick nada mais é do que a humanização de produtos. Isso na publicidade. Mas na política, a intenção é humanizar não um produto, mas o candidato. E é daí que vem a pergunta que gira em torno do trabalho: por que quem humanizar quem já é humano? Um gimmick geralmente é um mascote, como algum animal ou até mesmo o desenho do candidato. Na política, tem como objetivo melhorar a imagem dos políticos através de um desempenho performático.

É um processo caro e que consiste em um truque ou atrativo com efeito visual ou sonoro. Nota-se que nos três casos mencionados no trabalho (Kassab/Kassabinho; Serafim/Sarafina e Manuela/manu), o gimmick é um desenho. Com o objetivo de humanizar os candidatos, esses desenhos são praticamente uma versão jovem do candidato, ou seja, ele é juvelinizado. O boneco, além de ser uma cópia mais jovem, alegre e enérgica do político, veste roupas informais, o que ajuda a passar a idéia de que o candidato é comum, como as outras pessoas. Como se fosse aquele vizinho em que as pessoas confiam. É um truque para conquistar também a simpatia do público e ser o mais carismático possível, assim como uma pasta de dente com braços e pernas, sendo altamente alegre e simpática enquanto se dirige ao consumidor. Enquanto a pasta de dente praticamente diz “me compre”, o político (ou melhor, seu gimmick) diz “votem em mim”.

Porém, uma coisa é humanizar produtos. Eles não pensam, não falam e não agem. Porque, na política, humanizam-se pessoas? Elas já são humanas, afinal. Talvez uma resposta plausível seja que as pessoas só vêem o candidato como um ser humano quando se usa o recurso dos gimmicks. A utilização desses desenhos evidencia o quanto o político se desumanizou em todo esse processo político-eleitoral.

Resenha sobre o trabalho “A música na política eleitoral”, da 1ª sessão do GT 9 de quinta-feira por Isadora Mann

O primeiro trabalho apresentado no GT 9 (Propaganda e marketing político) foi sobre a questão dos jingles políticos-eleitorais. Primeiro define-se jingle: é uma música de curta duração cuja função é de chamar a atenção e a emoção do público. O jingle preocupa-se em ser popular e agradável aos ouvidos dos eleitores. É uma peça publicitária. A relação entre música e política é muito antiga, já que até na revolução francesa era usado um grito de guerra. Aqui no Brasil começou antes mesmo da república, na composição do Hino Nacional. Na composição dos jingles são usados vários elementos de síntese de várias características dos candidatos, ou seja, “quem sou eu tem que aparecer no jingle”. E para isso, utiliza-se de uma linguagem francamente emotiva, tentando fixar um conceito sobre a candidatura. Hoje a questão dos jingles é altamente contemporânea, uma vez que há um mesmo jingle com vários ritmos.

Uma curiosidade sobre os jingles que foi falada no trabalho é que há uma informação pouco mencionada nos mesmos: o partido. Isso é um indício de que o candidato já se coloca como protagonista da situação. “O importante não é o partido, o importante sou eu”. Uma tática bastante eficaz e praticada com regularidade na construção dos jingles é o uso de corais, que passa a idéia de coletividade. Remete ao apoio e a popularidade que a candidatura tem. Outro elemento muito presente também e que possui eficácia é o uso de vozes famosas. Um aspecto que é importante ressaltar é que jingle não é uma marchinha, porém essa última ainda se faz muito presente nos jingles. Surgiram antes mesmo do jingle comercial ser lançado nos EUA. Em termos de pesquisa, foram analisados 26 jingles históricos entre 50 e 62.

Como conclusão, pode-se dizer que a utilização dos jingles nas campanhas políticas é de grande importância para o sucesso ou não do candidato. Tanto o jingle pragmático quanto o emocional tem como objetivo conseguir apoio e votos, assim como tem o poder de diminuir o apoio e votos a outros políticos. A relação entre música e política perdura e uma coisa é certa: os jingles nunca caíram em desuso e provavelmente nunca cairão.

Leia tentando não pensar em sua opnião

A matéria é da Folha.com e mostra uma visão interessante sobre uma outra possibilidade de análise que foi resultado da entrevista de um deputado a um programa de televisão. O que aconteceu teve grande repercussão, e acredito ser a postagem uma opção diferente.
07/04/2011 - 07h03

Uma defesa de Bolsonaro


Com o atraso que se faz necessário para serenar os espíritos, comento o caso envolvendo o deputado Jair Bolsonaro, que, ao invectivar simultaneamente contra negros e homossexuais, despertou a sincera ira de amplos setores da sociedade. Evidentemente, estou entre os que acham que o mandatário tem o direito de dizer o que pensa, por mais politicamente incorretas, ofensivas ou imorais que sejam suas declarações. Aliás, surpreendeu-me o número de pessoas (incluindo algumas que eu respeito) que advogou pela abertura de processos criminal e por quebra de decoro contra o legislador.
Não sou fã da imunidade parlamentar, mas, se há uma restiazinha de sentido neste instituto, ela está justamente na blindagem de congressistas em relação aos chamados crimes contra a honra. E sair-se com casuísmos do tipo "a imunidade só vale para declarações relacionadas ao exercício do mandato" é uma patacoada. Tentar distinguir entre os "momentos parlamentares" e os não parlamentares na vida de um legislador é exercício fadado ao fracasso, e não só porque eles trabalham pouco. Quando deu a entrevista que deflagrou o escândalo, o intimorato Bolsonaro estava longe da tribuna; ainda assim só havia sido procurado pela mídia porque tem assento no Congresso Nacional. Esse é um "instante deputado" ou não deputado?
Faço minha uma frase do linguista e militante esquerdsista norte-americano Noam Chomsky: "Se você acredita em liberdade de expressão, então acredita em liberdade para exprimir opiniões que você não gosta. Stálin e Hitler, por exemplo, eram ditadores favoráveis à liberdade de exprimir apenas opiniões que eles gostavam. Se você é a favor da liberdade de expressão, isso significa que você é a favor da liberdade de exprimir precisamente as opiniões que você despreza".
Com efeito, ninguém precisa de licença ou autorização para dizer o que todos querem ouvir. Ou bem o instituto da liberdade de expressão existe para abarcar casos como o de Bolsonaro, ou ele se torna um penduricalho inútil na legislação, uma palavra de ordem no máximo.
E eu receio que tenha sido isto o que aconteceu: a liberdade de expressão acabou se tornando uma "idée reçue" (ideia aceita). Achamos que ela é importante porque todos dizem que é importante, mas o raciocínio para aí. Minha intenção é usar a coluna de hoje para tentar mostrar por que devemos defender o direito de um cidadão dizer o que deseja mesmo que o conteúdo de suas declarações nos repugne.
Parte da culpa pelo marasmo em que o conceito de liberdade de expressão caiu é da turma dos direitos humanos (na qual me incluo). Sempre que precisamos justificá-la, abraçamos a solução preguiçosa de fazer referência ao artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos do Homem, que a afirma. Podemos eventualmente avançar até os artigos 5º, IX e 220 da Constituição brasileira, ou à primeira emenda da Carta dos EUA, que também a mencionam, mas continuaremos não dizendo muito. Apenas citar as peças normativas que aludem à liberdade de expressão faz com que ela pareça um direito natural, e direitos naturais, lamento dizê-lo, são uma grande bobagem. Quer dizer, eles até podem fazer sentido para quem acredita num Papai do Céu que presenteia seus povos preferidos com tábuas de leis e garantias fundamentais, mas, se quisermos ser um bocadinho mais sofisticados do que isso, precisamos pensar direitos como regras positivas que se articulam em torno de intuições morais e princípios de organização social.
Numa simplificação grosseira, a liberdade de expressão deve constar de nossos sistemas legais porque ela satisfaz a teoria da justiça embutida em nossos cérebros e, igualmente importante, tende a tornar melhor as sociedades em que vivemos.
Em "On Liberty", um primoroso opúsculo de 1859 que anda lamentavelmente meio esquecido, o filósofo John Stuart Mill (1806-1873) diz quase tudo o que é preciso dizer sobre o assunto. Como todo bom liberal inglês, ele alerta para as injustiças que um governo pode cometer contra o indivíduo, mas lembra que o Estado não é o único perigo. A sociedade, através das "opiniões e sentimentos prevalecentes", pode converter-se num poder ainda mais opressivo que o do Estado. É o que Mill chama de "tirania da maioria". E a única forma de contrapor-se a ela (e às outras potenciais ditaduras que rondam à espreita) é conferir ao cidadão liberdades em seu grau superlativo. "Na parte que concene apenas a ele mesmo [o indivíduo], à sua independência, o direito é absoluto. Sobre si mesmo, o seu corpo e sua mente, o indivíduo é soberano".
O autor detalha um pouco mais o quadro, destacando a liberdade de pensamento (que, para ser efetiva precisa incluir as liberdades de expressão e de imprensa), a liberdade de buscar o que quer que apeteça ao sujeito, ainda que isso pareça imoral aos olhos de muitos, e a liberdade de reunião, isto é, de juntar-se a outras pessoas.
Mill, é claro, não era tonto. Ele logo percebeu que uma liberdade assim forte fatalmente entraria em conflito com outros direitos que devem ser preservados. Impôs, portanto, um único limite a essa liberdade: o princípio do dano. Para o filósofo, "a única situação em que o poder pode justificadamente ser exercido contra a vontade de qualquer membro de uma comunidade civilizada é para prevenir dano a outros".
Definir o que seja dano é evidentemente problemático. Mill, porém, tinha em mente perigos físicos muito concretos e não meras indignações e chiliques por parte de gente que se ofende com facilidade. Vale lembrar que o autor também abre uma exceção para que possamos impor nossa autoridade sobre crianças e pessoas privadas de juízo, mas apenas enquanto estas não puderem ser donas de seus próprios narizes.
As liberdades de Mill, notadamente a de pensamento, estão na base de muitas das instituições que definem a modernidade. Um exemplo é a liberdade acadêmica e, com ela, o desenvolvimento técnico e científico que hoje vivemos. Até podemos conceber que ciência seja produzida num contexto de censura a ideias, mas parece forçoso admitir que seu escopo seria menor e seu ritmo, mais lento.
De modo análogo, vários autores ligam a liberdade de expressão à própria noção de democracia. A razão mais óbvia é que, pelo menos nos livros-texto, um dos requisitos para o bom funcionamento da democracia é a existência de um eleitorado bem informado.
Já quase recorrendo à teoria dos jogos é possível também afirmar que a liberdade de expressão, ao assegurar que todos os temas possam ser discutidos e sob todas as perspectivas, ajuda a sociedade a encontrar o balanço entre mudança e estabilidade. Tome-se o caso da moral. Um debate aberto permite que se proceda ao ajuste fino entre a saudável contestação e o necessário consenso. Como eu escrevi neste mesmo espaço três semanas atrás: "A figura do 'dissenter', embora possa produzir fricções de alto custo emocional para todas as partes envolvidas, também costuma levar a maioria a reformular seus argumentos (ou projetos), de modo a responder a objeções percebidas como relevantes. Essa dinâmica fica particularmente clara em situações como a de tribunais colegiados e comissões legislativas. O 'do contra' aqui, ainda que possa provocar brigas homéricas, é um elemento fundamental para melhorar a qualidade do trabalho".
E vale lembrar que, para cada Bolsonaro ecoando ideias racistas e homofóbicas, existe também um sujeito progressista defendendo pontos de vista libertários e avanços sociais. Na média, quando todos podem falar livremente, é a sociedade que sai ganhando.
PS - Depois de uma defesa tão veemente do direito do deputado Jair Bolsonaro de dizer o que pensa, só me resta dizer o que penso dele: sujeitinho detestável!

Hélio Schwartsman

Indicação: Mayara Caetano

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Resenha relacionando o "Mito da Caverna" de Platão ao filme "A Vila", por Ioná Ricobello

Um mito da Filosofia, o Mito da Caverna, narrado por Platão em A República, é transposto para uma narrativa cinematográfica contemporânea. Essa transposição está fortemente ligada à tese e à crítica de Platão de como de encontra a condição humana.

O filme em questão foi lançado em 2004, pelo jovem indiano M. Night Shaymalan, levando o nome de A Vila (The Village). Com uma atmosfera de aspecto antigo, cidade de época, passa uma sensação de simplicidade, que também acompanha sua sinopse. A vila na qual os personagens do filme moram é, a princípio, um lugar calmo, tranqüilo, de harmonia e perfeito para se viver, porém, atormentada por seres estranhos que impedem os moradores de atravessarem a floresta. Portanto, esse tal medo do desconhecido, a qual chama de "Aqueles que não podemos falar", é o que faz com que as pessoas permaneçam na vila, deixa-os sem coragem de atravessar a floresta.

Assim, a narrativa do filme gira em torno da seguinte situação: os habitantes vivem na vila, sabendo que há algo exterior à ela advindo da floresta que os causa medo, fazendo com que continuem aprisionados na vila. Relacionando com a narrativa platônica, há semelhanças que não são meras coincidências, pois nela trata-se de homens que estão voltados para o fundo de uma caverna, presos a grilhões que os impossibilitam de olhar para a abertura da mesma e ver a luz que vem de fora, e então apreciam as sombras, que vêem como realidade. O mito indica a ignorância do homem, faltando-lhe o conhecimento, possuidor de uma percepção de realidade restrita e irreal, equivocada.

Em ambas as narrativas há limtes geográficos, na platônica configurando-se pela caverna sombria e no filme representados pela vila, cercada pela floresta. No filme, os "cadeados e grilhões", que também estão presentes no texto, são afrouxados ao passo que Lucius Hunt se sente instigado a conhecer a floresta, porém é impedido pelos anciões que governam a vila. Eis que Lucius sofre uma tentativa de homicídio e sua futura esposa, Ivy, uma deficiente visual, decide se arriscar na floresta em busca de remédios para salvar a vida dele. O romance aparece como um pretexto para que a personagem se encoraje a ultrapassar os limites impostos e, então, atravessar a linha entre ignorância e conhecimento.

Sob o olhar platônico, a caminhada que vai da libertação dos grilhões do mundo visível, passando pela descoberta da verdade e resultando na busca e no encontro do conhecimento, da luz, na parte de fora da caverna, é longa e dolorosa. Ele afirma que a luz solar ofusca os olhos do homem, devido à desconstrução da realidade que ele conhecera durante muito tempo, porém, após o impacto inicial, o olhar humano se abre à diversas novas imagens, objetos e outras coisas antes não conhecidas. Ivy também encontra seus obstáculos quando decide enfrentar a floresta, tais como chuva, armadilhas, muro, assim como os obstáculos até a saída da caverna, encontrados no mito. Até mesmo a cegueira de Ivy pode ser relacionada à ignorância e falta de conhecimento às quais Platão se refere.